é preciso lapidar o poema, querida
não se pode escrever algo, assim, de repente e se dar por satisfeita
porque o mundo é mesmo uma barafundada sem tamanho
é preciso retornar, dar ré, criar a estrada somente para refazê-la
aquilo que você cuspiu de primeira é apenas uma gosma gástrica da arte
é aquilo que nem você suporta e precisa livrar-se
o que nós precisamos é do seu bolo fecal artístico
isso que foi digerido, que passou por sua tripas
as vísceras são muito importante para o poema
ou a senhora acha mesmo que esse seu gumitinho matinal rimado
essas palavras que você recolheu da preguiça da lua são mesmo algo além disso, um arremedo, o medo dos seus sonhos marginais?
cecília meireles tinha anotações em restos de jornais mais brilhantes que o último lançamento da moça lá, eu não sei porquê, mas a vida é assim...
ve lá, enchendo as prateleiras de livro com lingerie de seda parcelada em 12x no cartão.
sinto muito, querida...a coisa não é tão fácil assim.
e não sei o que é preciso.
ofinas de escrita, yoga, não comer carne, não sei o que ajuda. uma mãe narcisista ajuda? talvez. com certeza mais do que acreditar que se é poeta porque se é alfabetizada e se conhece a palavra diáfana.
é preciso tanta coisa para ser poeta...
ser homem e não ter que limpar a casa parece que ajuda um pouco, também.
sentar a sombra de uma condição ideal, na qual não se tem que pensar o que se vai fazer de mistura para o almoço, nem que se tem que jogar fora as fraldas cheias de coco.
poder arranhar a pele por dentro sem precisar se medicalizar
ter a buceta da boca lambendo as melecas do verbo
descansar no delírio e não ir para o hospício
deprimir os pelos do dia
arrebentar a lógica entre um minuto e outro
suspender suas conquistas e encarar a cegueira da luz eterna
sonhar acordada, pegar fogo na chama fulminante dos sentidos
"é preciso lapidar o poema, querida
como se o poema fosse um pau a ser acariciado pra ficar bem duro"
que coisa mais ridícula...
a poesia jorra, não ejacula
é preciso o que você quiser e puder para fazer poemas
escreva-os em você mesma, nas paredes, em páginas
escreva sobre as páginas já escritas
todo poeta é um homem que criou seu próprio útero
freud não viu isso?
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molhem o orquídea...