16/01/2026

"eu vou desdizer aquilo tudo que eu lhe disse antes"

é preciso lapidar o poema, querida

não se pode escrever algo, assim, de repente e se dar por satisfeita

porque o mundo é mesmo uma barafundada sem tamanho

é preciso retornar, dar ré, criar a estrada somente para refazê-la

aquilo que você cuspiu de primeira é apenas uma gosma gástrica da arte

é aquilo que nem você suporta e precisa livrar-se

o que nós precisamos é do seu bolo fecal artístico

isso que foi digerido, que passou por sua tripas

as vísceras são muito importante para o poema


ou a senhora acha mesmo que esse seu gumitinho matinal rimado

essas palavras que você recolheu da preguiça da lua são mesmo algo além disso, um arremedo, o medo dos seus sonhos marginais?

cecília meireles tinha anotações em restos de jornais mais brilhantes que o último lançamento da moça lá, eu não sei porquê, mas a vida é assim...

ve lá, enchendo as prateleiras de livro com lingerie de seda parcelada em 12x no cartão. 

sinto muito, querida...a coisa não é tão fácil assim. 

e não sei o que é preciso. 

ofinas de escrita, yoga, não comer carne, não sei o que ajuda. uma mãe narcisista ajuda? talvez. com certeza mais do que acreditar que se é poeta porque se é alfabetizada e se conhece a palavra diáfana.


é preciso tanta coisa para ser poeta...

ser homem e não ter que limpar a casa parece que ajuda um pouco, também. 


sentar a sombra de uma condição ideal, na qual não se tem que pensar o que se vai fazer de mistura para o almoço, nem que se tem que jogar fora as fraldas cheias de coco.  


poder arranhar a pele por dentro sem precisar se medicalizar

ter a buceta da boca lambendo as melecas do verbo

descansar no delírio e não ir para o hospício

deprimir os pelos do dia 

arrebentar a lógica entre um minuto e outro

suspender suas conquistas e encarar a cegueira da luz eterna 

sonhar acordada, pegar fogo na chama fulminante dos sentidos


"é preciso lapidar o poema, querida

como se o poema fosse um pau a ser acariciado pra ficar bem duro"

que coisa mais ridícula...

a poesia jorra, não ejacula

é preciso o que você quiser e puder para fazer poemas

escreva-os em você mesma, nas paredes, em páginas 

escreva sobre as páginas já escritas


todo poeta é um homem que criou seu próprio útero

freud não viu isso?













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