eu sou feita de casca de ovo
revestida por dentro
com cimento
cheiro de cebola, alho, tetona gorda de mãe
dourando na gordura da própria pele, fervendo os contornos
ficando sem cabelo e pelo
sorrindo todas cores primárias
aprendendo ser bebê careca
: ainda não pode caminhar
mas já dança.
estatelada
estatelada
estatelada
arreganhada
arreganhada
arreganhada
esquisita
esquisita
esquisita
vontade
mantiqueira, beiradas
uma árvore é o arredor do universo inteiro
mantiqueira, barrancos
o fim do mundo recolhido pelo canto dos pássaros
margem
mamães rãs nas bordas das águas
quimera
presságios, nascimentos, cascas quebradas: ovos e auroras.
o que sabemos, o que temos a dizer sobre os
corpos dos velhos
para além do discurso médico?
para além de todo um império de pele envergonhado?
para além da morte?
para além dessa alcateia de sintomas, síndromes e demências e, ao mesmo tempo
dentro dela, o que é ser velho?
o tempo suspenso das definições
que olham para a velhice
como se olhassem para uma longa despedida
até o último suspiro
até a verdadeira despedida
o que é
o corpo
de um velho?
os sonhos ? os pássaros? as ruas? as sextas-feiras de abril? os patrões e as patroas?
as chupetas? as cores das paredes das fábricas?
o primeiro amor?
os varais? as traições?
as botinas? os uniformes? as outras cidadezinhas?
os caminhos de terra? os telhados com goteiras?
a amiga? as filhas mais velhas?
o aborto? as dívidas?
os cafezais floridos?
sestrosa púrpura dos talinhos, entumecidos versos
e babam
orvalhos cerebrais
gotejam raios muito pequenos, azuis e oleosos
como se fosse possível
com as mãos
subir e descer subir parar subir e torcer
lentamente
as ideias
com fome
do impossível
impossível mundo salvo pelos poetas pobres
impossíveis flores públicas sem sede
impossíveis clareiras no futuro.
tenho uma vizinha, senhora de 87 anos
ela, ao entardecer, chama durante mais ou menos uma ou duas horas
sua mãe, filhos pequenos, pai, alguém para abrir a porteira ou o portão
é surpreendente a força de sua voz
ela está acamada, mas sua voz não
fico pensando que é uma loba solitária
a verdadeira loba que preservou a sua voz
e fico pensando também
o que teriam a dizer
sobretudo a fazer
as psicanalistas junguianas com está mulher idosa
que de alguma forma
desceu no pântano da memória
e a cada dia traz de lá
os ossos do tempo e do barro
gostaria de vê-las ter algo mais a dizer
do que um diagnóstico relacionado a demência
gostaria de assistir
as mulheres que correm com os lobos
dançarem esta música sombria e vital
da velha acamada e de fraldas
sem ficarem ou muito tristes
ou aterrorizadas
afinal
o fundo do fundo
é ou não é
o terreno fértil para o feminino
inclusive em seus estertores?
haverá uma dança para isso?
a derradeira dança em volta do fogo, que é o grito?
“A arte para mim é a expulsão dos seres contidos, doloridos,
em grandes quantidades, num parto colorido”.