um dose de coragem com gelo
orquídea de pelo - poemas eróticos
21/05/2026
melados, caldas grossas
língua esticada e a gota
tudo muito quente
boca do fogão acesa, batom, pétalas mornas na manhã
calcinha de algodão e raios macios, varal, vento
melada, mão, unhas curtas vermelhas
delicadeza e gosto, mais morango, muito mais framboesas
amassar, deixar escorrer entre os dedos
cair no chão
esticar as costas no chão, espichar o prazer de cada osso
respirar o brilho das coisas entumecendo
comover-se, mil coraçõezinhos batendo na ponta dos dedos
labirinto deslumbrante, ladrilhos
encruzilhadas azuis
pelos vermelhos
as lindezas, verbos de estrelas cadentes
labirinto azul claro,
abrindo portas, mais outras portas dentro das noites douradas
abrindo minhas pernas
muros deflorados pela luz da lua
todas as direções, paredes de certezas quebradas
noite, labirinto e todo amor, meu amor, o amor no labirinto
ruivo
08/02/2026
túmida
a carne tingiu-se toda
clama alguma aquarela para os próprios ossos
quer deitar-se em raios de sol, quer os pelos dos cristais
trêmula, a carne observa a velha que ainda arde e deseja
ressente-se da finitude, fala mal com os anjos
por dentro das coisas por dentro de tudo:
vasos, vestidos de seda, mãos calosas, barrigas de grávida
a carne dá de comer ao amanhã vermelhos tão tenros
que no agora, a carne não aguenta tanto
umedece, resplandece e sucumbe.
esperança nas cores
na cor efervescente
desdobram-se azuis sob mil tons de azuis
a atividade mesma do brilho entorna estrelas muito pequenas
pairando sobre amarelos que virão bastante famintos
a cor efervescente procura uma nuance
que salvará o futuro das utopias furta-cor.
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sustentar metáforas
com a gema dourada da poesia
nutrir alegorias, tanto e tanto
acusar qualquer beleza com grãos de açúcar
nenhum despojamento
nenhuma humildade
agora, toda volúpia da linguagem
estará para a hora da vida.
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uma pequena centelha
serve para mostrar o mundo inteiro
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Sábias cores,
os primitivos vermelhos
das paixões e das fogueiras intermináveis
Este caldo rubro na íris das origens
acenderá pátrias escarlates
com as chamas antigas
que nos dão
as auroras de nossas mãos.
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duradouros flocos de nuvens
efêmeras montanhas de neve
um branco febril
dá ardência de eternidade
a tudo.
26/01/2026
boletim científico: comitê das mulheres cristãs
o comitê informa:
todos os idosos passarão a ser considerados etapa final do processo.
a partir de agora, ninguém envelhecerá
sem plano de contenção,
sem cronograma de encerramento,
sem utilidade previamente avaliada.
a memória será classificada como excesso.
a lentidão, como falha operacional.
não haverá mais tempo improdutivo;
foi abolido por diretriz.
idosos reconhecidos como tal
pelos critérios oficiais
serão encaminhados ao programa de adequação tardia.
em termos práticos, o comitê prevê
uma redução dos custos emocionais,
das histórias longas demais,
dos corpos que insistem em permanecer.
a experiência será arquivada.
o conselho, dispensado.
o afeto, tolerado apenas em ocasiões previstas.
a autonomia será substituída
por protocolos de segurança.
viver muito deixará de ser virtude
e passará a ser exceção controlada.
o fim não será chamado de fim,
mas de transição eficiente.
o comitê encerra a nota.
descansar, daqui em diante,
significa não ocupar espaço.
boletim científico: comitê das mulheres cristãs
o comitê informa:
todos os adolescentes passarão a ser considerados fase de risco.
a partir de agora, nenhum jovem atravessará este período
sem monitoramento contínuo,
sem avaliação constante,
sem correção preventiva.
a instabilidade foi reclassificada como ameaça.
a dúvida, como falha de caráter.
não haverá mais experimentação;
foi abolida por protocolo.
adolescentes reconhecidos como tal
pelos critérios oficiais
serão submetidos ao programa de alinhamento.
em termos práticos, o comitê prevê
uma redução significativa da rebeldia,
da imaginação improdutiva
e das perguntas inconvenientes.
o desejo de mudança será tratado como sintoma.
a angústia, como desvio químico.
a tristeza, como erro de configuração.
as escolhas virão prontas,
os caminhos, sinalizados,
o futuro, previamente aprovado.
a passagem para a vida adulta
deixará de ser conflito
e passará a ser apenas adaptação.
o comitê encerra a nota.
crescer, daqui em diante,
significa aprender a não sair da linha.
boletim científico: comitê das mulheres cristãs
o comitê informa:
todos os homens nascerão, daqui em diante,
prontos.
a partir de agora, todo homem chegará ao mundo
já endurecido pelo sistema,
treinado para conter, preparado para comandar ou obedecer.
não haverá mais hesitação; ela foi abolida por
decreto.
o estado reconhece como falha qualquer traço de
fragilidade, delicadeza ou dúvida prolongada.
meninos reconhecidos como tal
pelos critérios oficiais
serão submetidos ao protocolo de adequação.
em termos práticos, o comitê prevê
uma elevação dos valores produtivos
que orientam a sociedade, já que os homens não precisarão aprender a sentir,
apenas a funcionar.
a empatia será considerada risco. o silêncio,
virtude. a violência, último recurso legítimo.
o matrimônio cumprirá sua função complementar: garantir
continuidade, autoridade,
e a reprodução fiel do modelo aprovado.
o comitê encerra a nota.
a ausência de afeto
é considerada maturidade.
boletim cientifico: comitê das mulheres cristãs
o comitê informa:
todas as mulheres, nascerão, daqui em diante, desvirginadas.
a partir de agora, toda mulher chegará ao mundo
já violada pelo sistema, medida e corrigida.
não haverá mais hímens, eles foram abolidos por decreto.
o santo estado cristão, será o responsável por exterminar este elemento inapropriado
meninas reconhecidas como tal pelos critérios oficiais
serão protegidas por esta modificação genética.
em termos práticos, o comitê prevê
uma elevação dos valores morais
que orientam as famílias,
que não mais precisarão vigiar, educar ou proteger, pois a norma já terá sido inscrita no corpo.
o matrimônio cumprirá sua função principal:
organizar, regular, manter estável
o que já nasceu decidido.
o comitê encerra a nota.
o silêncio é considerado consenso.
sinhá
mulherzinha de papel rendado
mulherzinha branca
ó santa protegida por veludos brancos
noiva do luar
estes olhos lânguidos
estas mãos sem rugas
esta pele alva que nos custa
mil meninas negras
o casamento - nelsu rodrigues
terminei o livro casamento, do nelson rodrigues.
que perturbeira.
não indico a ninguém.
se a elite carioca é tão podre como ele retrata, o sem noção é esse homem que não foi embora assim que percebeu o ninho de gente vil, no qual ele estava.
as pessoas vão enlouquecendo, porque levam vidas cozidas na futilidade, no poder e na grana.
gente que se só faz peso na terra. que não faria diferença nenhuma, caso não tivesse existido.
quer dizer...não é bem assim. gente que se não tivesse existido, haveria menos guerra, incesto, violência e exploração.
é isso que cansa nesse livro. sim nós somos complexos, contraditórios de forma geral.
mas, as personagens do livro, que aparentemente são contraditórias, não são na verdade. é um tanto de gente que gira em torno do mesmo vórtice: a escrotidão. elas só vão escrotizando-se.
não há uma única ambiguidade genuína. somente interesses chapados, numa realidade que vai ficando espiritualmente hostil.
na semana que terminei esse livro, lembrei de várias coisas ruins que aconteceram comigo e que eu tinha esquecido.
não sei se literatura serve para isso. se a tal boa literatura é também como um coveiro a remexer em ossos, uma exumação poética inútil.
caso seja, que pena...que pena investirmos tanto nestes afetos acessíveis, nessas promoções sentimentais, neste velho postulado de que as pessoas não prestam mesmo, no fundo no fundo.
sou desconfiada disso.
talvez, a tristeza, o caos, sejam as camadas mais superficiais, a que temos a mão. especialmente porque somos folgados para karalho. não acreditamos tão bem assim que devemos dar um trampo para viver. acreditamos que somos merecedores porque já somos muito tristes...que conversa fiada, que argumento tacanho.
talvez a alegria, a exuberância, sejam camadas mais profundas da vida, por mais que se diga o contrário, aos desavisados.