sinuosalícia
dentra finos e finas e fios de cor
fundo de mim é pétala
aos toques das veludas, afundo
Quando caminhava nas estrelas
Quando o sol pingava mel em
minha boca
Quando o âmbar queimava os
pensamentos
Quando ventou colorido
Quando amanhecia nas polpas
Quando o amor
Quando: nunca a miséria
Quando as mãos brilhavam
Quando o chão embarreava
Quando a poeta sorria
Quando as pessoas perfumavam
as plantações de macieiras
eu escrevo
para ter o que declamar quando for velha
vou sentar-me a beira da varanda de algum abismo
e ler os meus poemas
diante da morte
sem mantras
sem terços ou rezas
apenas
eu
e
os versos
de uma vida inteira.
nove pássaros
instalam uma estranha manhã
cinco são ainda filhotes, chamam a lua
dois, um casal procurando ninhos
uma passarinha é viúva
e o canto mais alto
é de um pequeno pássaro amarelo
ele está confuso
olha o ypê sem flores este ano
e chora
não consegue entender a primavera.
a noite, o vento batendo na janela
uma vontade de estar em uma estrada, sob as estrelas de van gogh
parar o carro e me sentir desterrada
finalmente estrangeira, azulada
esse lugar lá, com tinturas guias
essa noite tão pintada por todas as pessoas com um sono de cor imensa
em suas casas, nos cantos das praças, nos hotéis, nos berços
sou todas elas, as desconheço, mas são importantes para mim
estar na terra oculta, encontrar piedosos matizes
para esquecer as compaixões do peito
e de tudo que respira.
cheiro de cebola, alho, tetona gorda de mãe
dourando na gordura da própria pele, fervendo os contornos
ficando sem cabelo e pelo
sorrindo todas cores primárias
aprendendo ser bebê careca
: ainda não pode caminhar
mas já dança.
estatelada
estatelada
estatelada
arreganhada
arreganhada
arreganhada
esquisita
esquisita
esquisita
vontade
mantiqueira, beiradas
uma árvore é o arredor do universo inteiro
mantiqueira, barrancos
o fim do mundo recolhido pelo canto dos pássaros
margem
mamães rãs nas bordas das águas
quimera
presságios, nascimentos, cascas quebradas: ovos e auroras.