18/08/2026

:: caganeiros

 cagança birulenta

bolsobosta

naneira mole, miolo apodrecido

eleições cuzistas

cocô

e

mandatos na merda. 




16/08/2026

:: alfabetização e mortes poéticas

 eu escrevo 

para ter o que declamar quando for velha

vou sentar-me a beira da varanda de algum abismo

e ler os meus poemas

diante da morte

sem mantras

sem terços ou rezas

apenas 

eu

os versos 

de uma vida inteira. 




:: farfalhar de imagens, estilhaços de nuvens

milhares de pequenos espelhos

brincam 

nas copas

das palmeiras

ao vento






:: sinfonia insólita, para céus famintos

nove pássaros

instalam uma estranha manhã

cinco são ainda filhotes, chamam a lua

dois, um casal procurando ninhos

uma passarinha é viúva

e o canto mais alto 

é de um pequeno pássaro amarelo

ele está confuso

olha o ypê sem flores este ano

e chora

não consegue entender a primavera. 




15/08/2026

:: as doces sombras, sempre frescas

 a noite, o vento batendo na janela

uma vontade de estar em uma estrada, sob as estrelas de van gogh

parar o carro e me sentir desterrada

finalmente estrangeira, azulada

esse lugar lá, com tinturas guias

essa noite tão pintada por todas as pessoas com um sono de cor imensa

em suas casas, nos cantos das praças, nos hotéis, nos berços

sou todas elas, as desconheço, mas são importantes para mim

estar na terra oculta, encontrar piedosos matizes

para esquecer as compaixões do peito

e de tudo que respira. 





09/08/2026

 

eu sou feita de casca de ovo

revestida por dentro

com cimento


Eli Heil

{{: leite poético - ternas coloridas favoritas

cheiro de cebola, alho, tetona gorda de mãe 

dourando na gordura da própria pele, fervendo os contornos

ficando sem cabelo e pelo

sorrindo todas cores primárias

aprendendo ser bebê careca

: ainda não pode caminhar

mas já dança. 


                                                                            Elil Oil

{{: peixas, langua

estatelada 

estatelada

estatelada 

arreganhada

arreganhada

arreganhada

esquisita

esquisita

esquisita

vontade 


                                                                          Eli Heil - 1996

{{: serra

mantiqueira, beiradas

uma árvore é o arredor do universo inteiro

mantiqueira, barrancos

o fim do mundo recolhido pelo canto dos pássaros

margem

mamães rãs nas bordas das águas

quimera

presságios, nascimentos, cascas quebradas: ovos e auroras. 








 

{{: amazônia, cipó poema - a cobra da língua

as cobrinhas
duas
falavam sobre estrelas, inimizades e os homens da cidade
melhores amigas, destilavam cascas venosas entre as palavras
endureciam a gramática
e
ao mesmo
tempo
tornavam viscosas as durezas dos verbos
das ações menos idealistas

rastejavam ternas 
picadas espumantes da ternura, entre elas. 

03/08/2026

{{: manifesto estético etaristico

 



o que sabemos, o que temos a dizer sobre os

corpos dos velhos

para além do discurso médico?

para além de todo um império de pele envergonhado? 

para além da morte? 

para além dessa alcateia de sintomas, síndromes e demências e, ao mesmo tempo

dentro dela, o que é ser velho? 


o tempo suspenso das definições 

que olham para a velhice 

como se olhassem para uma longa despedida


até o último suspiro

até a verdadeira despedida

o que é 

o corpo 

de um velho? 


os sonhos ? os pássaros? as ruas? as sextas-feiras de abril? os patrões e as patroas? 

as chupetas? as cores das paredes das fábricas? 

o primeiro amor?

os varais? as traições? 

as botinas? os uniformes?  as outras cidadezinhas? 

os caminhos de terra? os telhados com goteiras? 

a amiga? as filhas mais velhas?

o aborto? as dívidas?

os cafezais floridos?




{{: imaginário eriçado

sestrosa púrpura dos talinhos, entumecidos versos 

e babam

orvalhos cerebrais


gotejam raios muito pequenos, azuis e oleosos

como se fosse possível

com as mãos 

subir e descer subir parar subir e torcer

lentamente

as ideias

com fome 

do impossível


impossível mundo salvo pelos poetas pobres

impossíveis flores públicas sem sede

impossíveis clareiras no futuro.