27/12/2025

exercícios para helberto helder

 os cavalos de helberto são inalcançáveis, por mais que se possa montar neles por um tempo

todas as suas estrelas, mulheres e  dentes de leão são verdadeiramente o que deveriam ser, mas nunca podem ser de fato nossos amigos íntimos

seus poemas nos levam às alturas, somente para nos arremessar no nada, lá de cima, como se a poesia toda do mundo não coubesse dentro da terra e precisasse parar de respirar no espaço sideral, para poder, enfim, respirar com o pulmão de todas as galáxias e seus buracos negros e escuros coloridos. 

ele é um pouco mal. dá de comer somente ao que já está saciado e deixa morrer de fome o que não sabe pedir poesia 

não são poemas para qualquer um. é preciso ser um arremedo de poesia, algo fracassado, uma coisa absolutamente incompleta para resistir ao estrondo que irá quebrar todos os espelhos e transformar estilhaços cortantes em alimento iluminado para gargantas que querem e precisam ser abertas, que precisaram ampliar-se para engolir uma profusão de gostos e sabores. 

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a noite entrou pelo olhar da lua 

encontrou na íris lunar tesouros acumulados

eras de prata e colares de estrelas

pendendo no olhar, brilhos enlouquecidos pelo madre pérola 

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caminhei como um cão gigante e rubro

faminto, devorei ossos de por de sol 

latia em latim

depois mais alto, em grego

grunhidos vermelhos de socorro

por carinhos que estavam muito distantes no horizonte ensanguentado

passivo resignei 

tombando lixos com corações, romãs apodrecidas, chamas esquecidas  

não encontrei casa, nem dono, nem cadela

tornei a caminhar

como um cão, sozinho. 

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as horas colocaram vestidos de noiva e aguardaram no altar

brancas sedas e tafetás do tempo roçando expectativas

esperando maridos de futuro, esperando a chegada do cumprimento das promessas 

as horas, teceram véus muito delicados para tampar seus rostos infantis

se tornariam mulheres quando pudessem dançar valsas

que as libertassem, como se fossem anjos. 

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vamos pegar um trem, vamos pegar o trem dos absurdos

seguir os trilhos que nos levem para dentro das árvores

vamos viajar longamente vendo passar paisagens arruinadas por nossa solidão

vamos no comboio da loucura, arrancar nossos cabelos no dente e colar os fios em nossas costas, pra ver se conseguimos fazer asas

não arrume nenhuma mala, não precisa de bilhete

é um trem abandonado, anda a esmo, sobrevoa aviões e tempestades. 

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