26/01/2026

boletim científico: comitê das mulheres cristãs

 o comitê informa:

todos os idosos passarão a ser considerados etapa final do processo.

a partir de agora, ninguém envelhecerá
sem plano de contenção,
sem cronograma de encerramento,
sem utilidade previamente avaliada.

a memória será classificada como excesso.
a lentidão, como falha operacional.

não haverá mais tempo improdutivo;
foi abolido por diretriz.

idosos reconhecidos como tal
pelos critérios oficiais
serão encaminhados ao programa de adequação tardia.

em termos práticos, o comitê prevê
uma redução dos custos emocionais,
das histórias longas demais,
dos corpos que insistem em permanecer.

a experiência será arquivada.
o conselho, dispensado.
o afeto, tolerado apenas em ocasiões previstas.

a autonomia será substituída
por protocolos de segurança.

viver muito deixará de ser virtude
e passará a ser exceção controlada.

o fim não será chamado de fim,
mas de transição eficiente.

o comitê encerra a nota.
descansar, daqui em diante,
significa não ocupar espaço.

boletim científico: comitê das mulheres cristãs

 o comitê informa:

todos os adolescentes passarão a ser considerados fase de risco.

a partir de agora, nenhum jovem atravessará este período
sem monitoramento contínuo,
sem avaliação constante,
sem correção preventiva.

a instabilidade foi reclassificada como ameaça.
a dúvida, como falha de caráter.

não haverá mais experimentação;
foi abolida por protocolo.

adolescentes reconhecidos como tal
pelos critérios oficiais
serão submetidos ao programa de alinhamento.

em termos práticos, o comitê prevê
uma redução significativa da rebeldia,
da imaginação improdutiva
e das perguntas inconvenientes.

o desejo de mudança será tratado como sintoma.
a angústia, como desvio químico.
a tristeza, como erro de configuração.

as escolhas virão prontas,
os caminhos, sinalizados,
o futuro, previamente aprovado.

a passagem para a vida adulta
deixará de ser conflito
e passará a ser apenas adaptação.

o comitê encerra a nota.
crescer, daqui em diante,
significa aprender a não sair da linha.

boletim científico: comitê das mulheres cristãs

 o comitê informa:

todos os homens nascerão, daqui em diante, prontos.

a partir de agora, todo homem chegará ao mundo
já endurecido pelo sistema,
treinado para conter, preparado para comandar ou obedecer.

não haverá mais hesitação; ela foi abolida por decreto.

o estado reconhece como falha qualquer traço de fragilidade, delicadeza ou dúvida prolongada.

meninos reconhecidos como tal
pelos critérios oficiais
serão submetidos ao protocolo de adequação.

em termos práticos, o comitê prevê
uma elevação dos valores produtivos
que orientam a sociedade, já que os homens não precisarão aprender a sentir,
apenas a funcionar.

a empatia será considerada risco. o silêncio, virtude. a violência, último recurso legítimo.

o matrimônio cumprirá sua função complementar: garantir continuidade, autoridade,
e a reprodução fiel do modelo aprovado.

o comitê encerra a nota.
a ausência de afeto
é considerada maturidade.

boletim cientifico: comitê das mulheres cristãs

o comitê informa: 

todas as mulheres, nascerão, daqui em diante, desvirginadas. 

a partir de agora, toda mulher chegará ao mundo

já violada pelo sistema, medida e corrigida.

não haverá mais hímens, eles foram abolidos por decreto. 

o santo estado cristão, será o responsável por exterminar este elemento inapropriado

meninas reconhecidas como tal pelos critérios oficiais 

serão protegidas por esta modificação genética.

em termos práticos, o comitê prevê
uma elevação dos valores morais
que orientam as famílias,

que não mais precisarão vigiar, educar ou proteger, pois a norma já terá sido inscrita no corpo.

o matrimônio cumprirá sua função principal:
organizar, regular, manter estável
o que já nasceu decidido.

o comitê encerra a nota.
o silêncio é considerado consenso.





sinhá

 mulherzinha de papel rendado

mulherzinha branca

ó santa protegida por veludos brancos

noiva do luar 

estes olhos lânguidos

estas mãos sem rugas

esta pele alva que nos custa

mil meninas negras



 eu vou colocar aqui nesta folha coisas que não quero carregar

o peso no peito

a culpa

o medo

pronto ufa 

mas, agora o que faço com essa folha que pesa cem toneladas? 

o casamento - nelsu rodrigues

 terminei o livro casamento, do nelson rodrigues. 

que perturbeira. 

não indico a ninguém. 

se a elite carioca é tão podre como ele retrata, o sem noção é esse homem que não foi embora assim que percebeu o ninho de gente vil, no qual ele estava. 

as pessoas vão enlouquecendo, porque levam vidas cozidas na futilidade, no poder e na grana. 

gente que se só faz peso na terra. que não faria diferença nenhuma, caso não tivesse existido. 

quer dizer...não é bem assim. gente que se não tivesse existido, haveria menos guerra, incesto, violência e exploração. 

é isso que cansa nesse livro. sim nós somos complexos, contraditórios de forma geral. 

mas, as personagens do livro, que aparentemente são contraditórias, não são na verdade. é um tanto de gente que gira em torno do mesmo vórtice: a escrotidão. elas só vão escrotizando-se. 

não há uma única ambiguidade genuína. somente interesses chapados, numa realidade que vai ficando espiritualmente hostil. 

na semana que terminei esse livro, lembrei de várias coisas ruins que aconteceram comigo e que eu tinha esquecido. 

não sei se literatura serve para isso. se a tal boa literatura é também como um coveiro a remexer em ossos, uma exumação poética inútil.  

caso seja, que pena...que pena investirmos tanto nestes afetos acessíveis, nessas promoções sentimentais, neste velho postulado de que as pessoas não prestam mesmo, no fundo no fundo. 

sou desconfiada disso. 

talvez, a tristeza, o caos,  sejam as camadas mais superficiais, a que temos a mão. especialmente porque somos folgados para karalho. não acreditamos tão bem assim que devemos dar um trampo para viver. acreditamos que somos merecedores porque já somos muito tristes...que conversa fiada, que argumento tacanho. 

talvez a alegria, a exuberância, sejam camadas mais profundas da vida, por mais que se diga o contrário, aos desavisados. 


verões

o poeta chamou a família e sentenciou
¨é mesmo um monstrinho¨. 
disse que iria viver apenas um dia, 
que não fazia mal, que com as libélulas também sucedia assim. 
o casal, consternado, chorava pela graça alcançada
aquele amor de verão, tão robusto e breve
que daria o pôr do sol sanguinolento
mais lindo.  

normalitê

quase nada recomeça

quase nada termina

tudo é uma continuidade com plumas de recomeço

a maior parte da vida é no mesmo volume

hora ou outra

alguma sinfonia de pássaros coloridos

ou barulho na revoada distante e dolente

mas 

na maior parte do tempo

são estes pardais, nem piam

estas galinhas 

nos quintais dos interiores do mundo

botando ovos surdos. 

luto vaporoso - dona doquinha 24/01/2026

para curar um luto 

é necessário trezentas crianças soltando pipa

perceber rochedos mudando como as nuvens

chamar o sol para a pele da morta

agradecer pela vida ser o que é diante da sepultura

ter balas coloridas no bolso para oferecer ao bafo da morte

inundar as lembranças de poesia

perdoar a si mesmo

tocar a despedida com as mãos sem feridas. 

16/01/2026

heranças

o deserto me entregou um gênio

três pedidos flutuando entre sonhos alucinados

primeiro, pedi a perpétua glória das cores inundando meu destino 

segundo, a conjuração de prazeres inauditos

terceiro , nuvens de doçura dissipando-se dentro de nós


a tormenta me entregou um refúgio

no casulo imenso 

amparei o cansaço 

dos sonhos de minhas asas 


a noite escura me entregou todos os monstros

e uma fogueira azul

queimam desejos, sedas e ramos de hematomas esperançosos


o sexo me entregou um enigma

é preciso desvendar prazeres inteiros

macacas no cio, óvulos de colibris, cobras gozando

e filhotes observando tudo


a dor me entregou um fim

sem renascimento ou recomeço

terra arrasada, tombada

o sol acaba por aquecer os ossos expostos

banha com luz forte, amarelada, todo sangue derramado 

nas poças, a lua vermelha brilhará depois. 









sorte

 uma lagarta muito macia 

em minhas veias, dá corda em antigas primaveras 

come todo o verde a lagarta e engorda sob a sombra dos bons presságios



cachoeiras de pérolas íntimas, frescas

 

ponta de língua escorregadia

 

afunda os punhos em musgos d´agua

 

suspira dentro de bolhas 

 

refresca a língua do poema líquido e 


a boca salivando ondas enormes 


nesta marítima vontade  



"eu vou desdizer aquilo tudo que eu lhe disse antes"

é preciso lapidar o poema, querida

não se pode escrever algo, assim, de repente e se dar por satisfeita

porque o mundo é mesmo uma barafundada sem tamanho

é preciso retornar, dar ré, criar a estrada somente para refazê-la

aquilo que você cuspiu de primeira é apenas uma gosma gástrica da arte

é aquilo que nem você suporta e precisa livrar-se

o que nós precisamos é do seu bolo fecal artístico

isso que foi digerido, que passou por sua tripas

as vísceras são muito importante para o poema


ou a senhora acha mesmo que esse seu gumitinho matinal rimado

essas palavras que você recolheu da preguiça da lua são mesmo algo além disso, um arremedo, o medo dos seus sonhos marginais?

cecília meireles tinha anotações em restos de jornais mais brilhantes que o último lançamento da moça lá, eu não sei porquê, mas a vida é assim...

ve lá, enchendo as prateleiras de livro com lingerie de seda parcelada em 12x no cartão. 

sinto muito, querida...a coisa não é tão fácil assim. 

e não sei o que é preciso. 

ofinas de escrita, yoga, não comer carne, não sei o que ajuda. uma mãe narcisista ajuda? talvez. com certeza mais do que acreditar que se é poeta porque se é alfabetizada e se conhece a palavra diáfana.


é preciso tanta coisa para ser poeta...

ser homem e não ter que limpar a casa parece que ajuda um pouco, também. 


sentar a sombra de uma condição ideal, na qual não se tem que pensar o que se vai fazer de mistura para o almoço, nem que se tem que jogar fora as fraldas cheias de coco.  


poder arranhar a pele por dentro sem precisar se medicalizar

ter a buceta da boca lambendo as melecas do verbo

descansar no delírio e não ir para o hospício

deprimir os pelos do dia 

arrebentar a lógica entre um minuto e outro

suspender suas conquistas e encarar a cegueira da luz eterna 

sonhar acordada, pegar fogo na chama fulminante dos sentidos


"é preciso lapidar o poema, querida

como se o poema fosse um pau a ser acariciado pra ficar bem duro"

que coisa mais ridícula...

a poesia jorra, não ejacula

é preciso o que você quiser e puder para fazer poemas

escreva-os em você mesma, nas paredes, em páginas 

escreva sobre as páginas já escritas


todo poeta é um homem que criou seu próprio útero

freud não viu isso?