16/01/2026

heranças

o deserto me entregou um gênio

três pedidos flutuando entre sonhos alucinados

primeiro, pedi a perpétua glória das cores inundando meu destino 

segundo, a conjuração de prazeres inauditos

terceiro , nuvens de doçura dissipando-se dentro de nós


a tormenta me entregou um refúgio

no casulo imenso 

amparei o cansaço 

dos sonhos de minhas asas 


a noite escura me entregou todos os monstros

e uma fogueira azul

queimam desejos, sedas e ramos de hematomas esperançosos


o sexo me entregou um enigma

é preciso desvendar prazeres inteiros

macacas no cio, óvulos de colibris, cobras gozando

e filhotes observando tudo


a dor me entregou um fim

sem renascimento ou recomeço

terra arrasada, tombada

o sol acabar por aquecer os ossos expostos

banha com luz forte, amarelada, todo sangue derramado 

nas poças, a lua vermelha brilhará mais tarde. 









cachoeiras de pérolas íntimas, frescas

 

ponta de língua escorregadia

 

afunda os punhos em musgos d´agua

 

suspira dentro de bolhas 

 

refresca a língua do poema líquido e 


a boca salivando ondas enormes 


nesta marítima vontade  



"eu vou desdizer aquilo tudo que eu lhe disse antes"

é preciso lapidar o poema, querida

não se pode escrever algo, assim, de repente e se dar por satisfeita

porque o mundo é mesmo uma barafundada sem tamanho

é preciso retornar, dar ré, criar a estrada somente para refazê-la

aquilo que você cuspiu de primeira é apenas uma gosma gástrica da arte

é aquilo que nem você suporta e precisa livrar-se

o que nós precisamos é do seu bolo fecal artístico

isso que foi digerido, que passou por sua tripas

as vísceras são muito importante para o poema


ou a senhora acha mesmo que esse seu gumitinho matinal rimado

essas palavras que você recolheu da preguiça da lua são mesmo algo além disso, um arremedo, o medo dos seus sonhos marginais?

cecília meireles tinha anotações em restos de jornais mais brilhantes que o último lançamento da moça lá, eu não sei porquê, mas a vida é assim...

ve lá, enchendo as prateleiras de livro com lingerie de seda parcelada em 12x no cartão. 

sinto muito, querida...a coisa não é tão fácil assim. 

e não sei o que é preciso. 

ofinas de escrita, yoga, não comer carne, não sei o que ajuda. uma mãe narcisista ajuda? talvez. com certeza mais do que acreditar que se é poeta porque se é alfabetizada e se conhece a palavra diáfana.


é preciso tanta coisa para ser poeta...

ser homem e não ter que limpar a casa parece que ajuda um pouco, também. 


sentar a sombra de uma condição ideal, na qual não se tem que pensar o que se vai fazer de mistura para o almoço, nem que se tem que jogar fora as fraldas cheias de coco.  


poder arranhar a pele por dentro sem precisar se medicalizar

ter a buceta da boca lambendo as melecas do verbo

descansar no delírio e não ir para o hospício

deprimir os pelos do dia 

arrebentar a lógica entre um minuto e outro

suspender suas conquistas e encarar a cegueira da luz eterna 

sonhar acordada, pegar fogo na chama fulminante dos sentidos


"é preciso lapidar o poema, querida

como se o poema fosse um pau a ser acariciado pra ficar bem duro"

que coisa mais ridícula...

a poesia jorra, não ejacula

é preciso o que você quiser e puder para fazer poemas

escreva-os em você mesma, nas paredes, em páginas 

escreva sobre as páginas já escritas


todo poeta é um homem que criou seu próprio útero

freud não viu isso?













a paz bom dia
a paz boa noite
a paz irmão
a paz irmã
a paz bom atômica
a paz fuzil
a paz bala prateada
a paz polícia civil

cansei de dizer cinco, seis, sete

cansei de contar

cansei de continuar oito, nove, dez

após dormir, não perder as contas, não perder a sequência

destas cores 

que gritam alto de mais em meu peito

e mais estes brilhos afiados 

e mais todos estes moleques correndo para lá e para cá

derrubando o tempo 

pisoteando morangos

na tempestade vermelha do meu coração. 




 


28/12/2025

paleta do tempo

 tem uma coisa em ficar mais velha

muito boa

você adquire 

para o bem e para o mal

algum repertório

pessoalmente, estou gostando de acumular cores


tenho um vermelho para ofender

outro para amar

e outro fazer sangria poética


tenho azul para deprimir

um azul para libertar

e outro para os dias de calor


tenho um rosa para cresceram rosas extraordinariamente grandes dentro de mim

e outro para passar batom nas lembranças


tenho um preto para descansar

outro para os bailes a fantasia quando sonho

e outro para parar de entender por um tempo


tenho dois amarelos: o que as margaridas me deram e 

outro mais forte que lateja quando a vida dói


tenho um verde profundo das folhas de goiabeira

um verde das lagartas falantes que moram no meu coração

um verde clarinho, quase branco, para ficar mais calma


tenho muitos violetas

das florezinhas miúdas que estampam vestidos das velhas que amei

da alegria desvairada 

da tenacidade inexorável das despedidas

da ametista nos brincos de um deus que se enfeita


tenho um dourado amniótico 

do primeiro por do sol que vi, na barriga da minha mãe

e um dourado mágico

que brilha dentro da minha cabeça

e sempre me atrapalha as ideias

como se fosse possível mesmo eu ter um sol particular. 




metáfora sem saída

que sacada genial dizer que bicicletas voadoras comeram as distâncias entre os sonhos de meninos azulados de fome, assim como o céu que encurta sua sede com as tempestades que assolam plantações artificiais e telhados de zinco. 

mas, é bem certo que isso nada resolve a fome de crianças, de cavalos abandonados. é mais certo ainda que isso, nem de longe, deixa que moleques da favela possam montar nas tais bicicletas para finalmente alcançarem os pés de algum milagre que os trate com dignidade.  

metáforas servem para que, e afinal? 

cristo, o senhor das metáforas, espalhou pão, vinho e muitas delas por aqui, mas assim que pode subiu aos céus, tão apressado que nem usou um ovni, um avião, os pássaros do pequeno príncipe. 

os poetas abarrotados de metáforas... a maioria passa fome ou passa raiva com as próprias metáforas que criam, imagens de sentimentos e sonhos que os acossam, perturbam e liberta no espaço de uma solidão implacável. 

então, ficamos nesse debate antigo e medonho do pra que serve isso, se aquilo...

seria bom que agora eu desse uma guinada estupenda, que defendesse com unhas e dentes de ouro a existência das metáforas e que inclusive falasse bem direito sobre como elas nem precisam ter utilidade para existirem e ficarem por ai, com os peitos de fora, jorrando leite de estrelas grávidas. 

mas, o que eu acho mesmo, é que, hoje, as metáforas, pobres coitadas, estão tão fodidas quanto nós.  

27/12/2025

exercícios para helberto helder

 os cavalos de helberto são inalcançáveis, por mais que se possa montar neles por um tempo

todas as suas estrelas, mulheres e  dentes de leão são verdadeiramente o que deveriam ser, mas nunca podem ser de fato nossos amigos íntimos

seus poemas nos levam às alturas, somente para nos arremessar no nada, lá de cima, como se a poesia toda do mundo não coubesse dentro da terra e precisasse parar de respirar no espaço sideral, para poder, enfim, respirar com o pulmão de todas as galáxias e seus buracos negros e escuros coloridos. 

ele é um pouco mal. dá de comer somente ao que já está saciado e deixa morrer de fome o que não sabe pedir poesia 

não são poemas para qualquer um. é preciso ser um arremedo de poesia, algo fracassado, uma coisa absolutamente incompleta para resistir ao estrondo que irá quebrar todos os espelhos e transformar estilhaços cortantes em alimento iluminado para gargantas que querem e precisam ser abertas, que precisaram ampliar-se para engolir uma profusão de gostos e sabores. 

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a noite entrou pelo olhar da lua 

encontrou na íris lunar tesouros acumulados

eras de prata e colares de estrelas

pendendo no olhar, brilhos enlouquecidos pelo madre pérola 

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caminhei como um cão gigante e rubro

faminto, devorei ossos de por de sol 

latia em latim

depois mais alto, em grego

grunhidos vermelhos de socorro

por carinhos que estavam muito distantes no horizonte ensanguentado

passivo resignei 

tombando lixos com corações, romãs apodrecidas, chamas esquecidas  

não encontrei casa, nem dono, nem cadela

tornei a caminhar

como um cão, sozinho. 

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as horas colocaram vestidos de noiva e aguardaram no altar

brancas sedas e tafetás do tempo roçando expectativas

esperando maridos de futuro, esperando a chegada do cumprimento das promessas 

as horas, teceram véus muito delicados para tampar seus rostos infantis

se tornariam mulheres quando pudessem dançar valsas

que as libertassem, como se fossem anjos. 

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vamos pegar um trem, vamos pegar o trem dos absurdos

seguir os trilhos que nos levem para dentro das árvores

vamos viajar longamente vendo passar paisagens arruinadas por nossa solidão

vamos no comboio da loucura, arrancar nossos cabelos no dente e colar os fios em nossas costas, pra ver se conseguimos fazer asas

não arrume nenhuma mala, não precisa de bilhete

é um trem abandonado, anda a esmo, sobrevoa aviões e tempestades. 

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sonho

 e se o sol acordasse verde?

e se o mar acordasse alaranjado? 

e se o comunismo acordasse branco?

e se a lua acordasse violeta?

se a amazônia acordasse amarela? 

se o negros acordassem vermelhos?

se o cristo acordasse rosa?

se o sangue acordasse azul?

o por do sol preto?

o arco íris cinza? 

as estradas púrpura? 

o medo marrom?

e turquesa?

e oliva? 

e esmeralda? 

e fúcsia?

e aquela cor inédita? 

poemas mau humorados e amarelos

 a lâmpada da esperança queimou

era amarela e clareava cabeças, pés e dedos do futuro

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a água amarelou na lua poente

ficou doente, tossia e espirrava 

nela mesma, por dentro, gelava 

piorava seu pulmões, afogava de estrelas

foi ficando cada vez mais amarelinha

até que se verteu toda na areia 

secou no dourado do deserto

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ame as margaridas


bom dia

 a manhã vestiu o orvalho com sutiã de hortelã,  gelado na pele das bolhas de água

um galinha bicou o mamilo das gotas 

arrepios e pios

pios e arrepios

as peninhas do dia eriçadas 

por debaixo das primeiras horas, os seios frescos do novo dia



26/12/2025

querimentos

eu quero viver como os golfinhos 

como os cachorros de rua, na graça dos lixos de luxo 

não quero ser uma poeta triste nem uma puta liberta

quero dar de mama para filhotes baleia com minhas tetonas marítimas

eu quero poder andar pela rua como as formigas

indo e vindo, sem precisar saber quem eu realmente sou no formigueiro

não quero ter uma missão humana, não quero ser um míssil de mim 

quero ser contraditória, mas não em minhas ideias

mas como um buque de flores que chega fresco e vira um defunto das cores diante dos olhos atônitos do amor

quero mais e mais do menos de tudo isso

no entanto, nada disso quer dizer que eu não queira ser muito virtuosa

perseverar, manter-me firme, atenta

e descobrir, finalmente, 

o que eu faço comigo mesma dentro das manhãs mais lindas. 

poemas mau humorados e vermelhos

 o vento arrancando as calcinhas da folhas

as folhas rebolando para os raios de sol

deite-se de pernas abertas no sol do meio dia

astro tarado

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é primavera

o dia acordou com dor de barriga

bosta colorida pra todo lado

cagaram-se os artistas com seus pincéis de merda e palavras moles, líquidas

as mães tiveram que colocar fraldas

as noivas casaram no santo trono da privada

os meninos grafitaram com sprays de diarréia 

e as modelos comeram só um pedacico de coco, pra não sair da dieta. 

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deus

ajude o senhor a ser um 

deus

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trocaram as placas

todas as ruas estão na contramão

o trânsito melhorou muito

porque os motoqueiros bolsonaristas

agora só podem andar de ré

um sonho de menino

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coloquei um pouco de veneno

na água benta da igreja

morreram três ministras

era pra envenenar o padre pedófilo

quem iria adivinhar que as velhas gostavam de tomar um santo porre

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não sei

não sei ainda

continuo sem saber

saberei? não saberei

poderia saber? não saberia

saber-se-á? sabe-se-lá...

não sei por enquanto

não sei, tanto. 

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minha angústia comprou uma corda

disse que era colar lindo para pescoço

olhei...estranhei...experimentei

minha angústia disse que ficaria mais assentado mais apertado

olhei...estranhei...experimentei

para me convencer, minha angústia disse que era uma corda feita por uma senhora artesã muito boa, lá dos cafundó de minas gerais, que eu poderia mesmo usar

foi aí que peguei a cilada...não existe mais cafundó no mundo

nem em mim. 

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miséra de vida

que retorce as tripa dos sonhos

inté que eles chore, chore até cansa de ser bobagi

e finarmente se transformá

em mininos

mininos de 58 anos, muitu tristis. 

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foi lá que vi pela primeira vez

o arrebol

e o anzol que arrebatava o vermelho

para dentro dos olhos

dos maconheiros

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mas, ué

entoncê é isso mesmo fia

a gente inté dá de topa com um guimaraes rosa

e sua fina prosa

mas num cusegue

i pra além de nóis mesmo

aqui, nessas letra mal traçada pelo distino.

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 ontem ela 

se olhou no espelho

passou um batom

passou mais batom

foi passando batom para além dos lábios

passou batom nas bochechas, em volta dos olhos, em torno dela mesma, no ar da sala

morreu afogada num vermelho muito vivo

que não combinava com seu tom de pele

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